Morre primeira desenhista da Mulher Maravilha
Trina Robbins, a cartunista e artista conhecida por sua carreira de décadas no movimento underground e primeira mulher a desenhar a Mulher-Maravilha e criadora da Vampirella, faleceu aos 85 anos. A notícia foi dada na noite de quarta-feira (10), pela escritora de quadrinhos Gail Simone, que prestou homenagem a Robbins em uma postagem no Facebook (via ComicBook).
“Ela não foi apenas uma lendária criadora de quadrinhos, ela também foi uma das maiores historiadoras e pesquisadoras dos quadrinhos, e um guia para inúmeras meninas e mulheres que tinham dificuldade em acreditar que havia espaço para elas nesta forma de arte”, escreveu Simone.
A partir da década de 1970, Robbins se tornou uma das vozes femininas mais instrumentais do “underground comix”, contribuindo ou editando uma série de antologias e artigos. Ela também foi uma prolífica defensora das mulheres nos quadrinhos e nos desenhos animados, publicando mais de meia dúzia de livros sobre o assunto.
A QUADRINISTA TRINA ROBBINS PARTICIPANDO DA COMIC CON DE SAN DIEGO EM 1982 (FOTO: ALAN LIGHT/WIKIMEDIA COMMNS)
Quem foi Trina Robbins?
Trina Robbins sempre foi uma mulher a frente de seu tempo: há décadas ela faz juz àquelas que quebraram paradigmas nos primórdios da indústria das histórias em quadrinhos, abrindo portas para que hoje mais mulheres possam trabalhar nesse mercado.
Conhecida por ser uma pioneira das HQs feministas underground, Robbins foi a primeira mulher a publicar quadrinhos sobre uma mulher que se assumiu lésbica — isso em 1972, na edição de estreia da revista Wimmen’s Comix. Já no mercado mainstream de quadrinhos, Trina se tornou a primeira mulher a ilustrar a Mulher-Maravilha em 1986, com a publicação de The Legend of Wonder Woman.
Aos 80 anos, a quadrinista se dedica à criação de suas próprias graphic novels e à pesquisa sobre mulheres no mercado de HQs. À GALILEU, ela relembra sua trajetória e deixa um recado especial para as mulheres que querem começar na área.
Leia na íntegra entrevista dela para a Revista Galileu, em 2019
Você começou a trabalhar com quadrinhos quando estava em vigor o Comics Code Authority, código que, entre 1954 e o começo dos anos 2000, estabeleceu diretrizes conservadoras aos conteúdos de HQs. Como foi lidar com esse sistema?
Como eu não trabalhava no mercado mainstream, não me afetou muito. Naquela época, eu estava fazendo quadrinhos underground, e nós podíamos fazer o que quiséssemos. Não havia problemas. Éramos completamente diferentes de tudo o que estava no mercado.
O que mais te atraiu no movimento underground?
Bom, eu queria fazer quadrinhos, mas não queria desenhar super-heróis — e é sobre isso que quadrinhos mainstream se tratam. Eu ainda não gosto muito desse tipo de HQ, porque não tem nada a ver com o que eu vivo. Desde que as grandes empresas abriram mais espaço para mulheres trabalharem, eles ficaram muito melhores. Mas, na minha época, a maioria só falava sobre homens convencionais em trajes horríveis e o jeito deles resolverem os problemas era batendo, lutando. Isso não tinha nada a ver com a minha vida. Eu queria fazer os meus próprios quadrinhos.
Foi apenas no meio underground que você encontrou espaço para discutir assuntos como o feminismo?
Exato, e todo o contexto cultural dos anos 1960 colaborou com isso. Quando eu comecei a desenhar quadrinhos em 1966, o movimento feminista estava começando a se erguer e acabou explodindo no final da década. Foi através da contracultura que eu consegui produzir quadrinhos que tinham a ver com o que eu vivia. E foi fácil começar minha carreira nesse meio, porque havia um grande grupo de contracultura em Nova York e San Francisco. Eu tinha uma pequena boutique em Los Angeles, a Broccoli, onde eu fazia roupas para hippies. Lá também conheci o maior jornal underground da região, East Village Other, onde comecei a publicar minhas primeiras histórias.
Você encarou muitos desafios nesse campo?
Os editores nunca me importunaram, eles eram meus amigos e me publicavam. Mas, mais tarde, eu percebi que a maioria dos outros cartunistas era masculina e não me aceitava muito bem, ao contrário dos editores, que não viam problemas em me publicar.
Os profissionais do mainstream eram completamente diferentes: quando eu os encontrava, eles eram legais, mas não faziam parte da minha cultura, eram só homens heterossexuais convencionais com namoradas ou esposas igualmente comuns, que não tinham nada a ver com o tipo de vida que eu levava. Mas eles eram amigáveis e legais comigo, só tínhamos estilos de vida e de quadrinhos completamente diferentes. Mas eu não trabalhava para a Marvel ou para a DC, eu não tinha nada a ver com o mundo deles.