Subsidiária da gigante Posco Holdings deixou R$ 1 bilhão em dívidas no Brasil e caso está no radar de autoridades brasileiras
A visita oficial do presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, ao Brasil, com passagens por Brasília e São Paulo, ocorre em um momento em que os dois países buscam ampliar a parceria econômica e tecnológica, numa parceria agora alçada a condição de estratégica.
Em 2025, a corrente de comércio bilateral alcançou cerca de US$ 11 bilhões, refletindo o avanço das relações econômicas entre os dois países. Na agenda de interesses mútuos, defesa, energia, inovação e minerais críticos, além do acordo de comércio com o Mercosul.
Enquanto a agenda bilateral avança, um dos maiores litígios empresariais envolvendo uma das maiores empresas sul-coreanas no Ceará tem mobilizado autoridades brasileiras para solucionar o calote deixado pela subsidiária da Posco, gigante da siderurgia asiática, e impedir que o caso se torne um inconveniente diplomático e comprometa investimentos futuros.
A falência da Posco Engenharia & Construção do Brasil, subsidiária aberta pela matriz coreana, Posco Holding, para a construção da Companhia Siderúrgica do Pecém (CE), deixou um passivo estimado em aproximadamente R$ 1 bilhão, envolvendo trabalhadores, fornecedores, empresas brasileiras e órgãos públicos, incluindo créditos tributários da União.
A Posco Brasil lista 47 credores, isto é, pessoas físicas ou jurídicas para quem ela deve dinheiro. Entre eles estão ex-funcionários, pequenas e grandes empresas ou entes públicos, como a Fazenda Nacional, o INSS e a Receita Federal.
Nos últimos meses, o caso extrapolou a esfera privada. A Justiça do Ceará reconheceu a responsabilização da holding sobre as dívidas da unidade brasileira. Em outra frente, o Ministério das Relações Exteriores acionou contrapartes coreanas e notificou a Posco na Coreia para reabrir negociações e solucionar o caso. A Câmara dos Deputados, por sua vez, discutiu o tema em audiência pública.
O caso repercutiu na imprensa sul-coreana. Reportagens recentes destacaram as decisões da Justiça brasileira, a atuação diplomática do governo brasileiro e os possíveis impactos do caso para a Posco Holdings.
“No momento em que se discute uma aproximação entre os países, com vantagens óbvias para as duas nações, é fundamental que criar condições que garantam a segurança jurídica e a atração de investimentos de qualidade, que é o contrário do legado deixado pela Posco no Brasil. Como credores, acreditamos que é do interesse de todos resolver a questão e evitar que o episódio comprometa a relações entre Brasil e Coreia do Sul”, afirma Frederico Campelo, presidente da Associação Internacional de Credores da Posco (AIC-Posco), que reúne cerca de 40 credores da companhia.
A expectativa ocorre em um contexto no qual Brasil e Coreia do Sul buscam aprofundar a integração econômica, ampliar o fluxo de investimentos e avançar nas negociações do acordo Mercosul–Coreia do Sul. Atualmente, a Posco concentra investimentos na exploração de lítio, na Argentina.
Para representantes dos credores, o fortalecimento dessa relação depende não apenas da assinatura de novos acordos, mas também da demonstração de que grandes controvérsias empresariais são tratadas com transparência, previsibilidade e respeito às decisões das autoridades brasileiras.
Brasil e Coreia do Sul em números
– US$ 11 bilhões foi a corrente de comércio bilateral em 2025, o maior patamar recente da relação entre os dois países. As exportações brasileiras e as importações provenientes da Coreia do Sul ficaram praticamente equilibradas, em torno de US$ 5,5 bilhões cada.
– A Coreia do Sul é o 12º principal destino das exportações brasileiras e a 11ª principal origem das importações do Brasil.
– As principais exportações brasileiras para a Coreia do Sul são petróleo, minério de ferro, celulose, soja e carnes.
– As principais importações brasileiras provenientes da Coreia do Sul são automóveis e autopeças, máquinas e equipamentos, semicondutores, produtos siderúrgicos, químicos e farmacêuticos.
Fonte: Governo do Brasil
Sobre o caso Posco
A Posco Engenharia & Construção do Brasil foi responsável pela construção da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), no Ceará, empreendimento desenvolvido em parceria com a Vale, a Posco Holdings e a Dongkuk Steel, considerado um dos maiores investimentos estrangeiros da história do Brasil e o maior já realizado no Ceará, no valor de US$ 5,4 bilhões.
Após a conclusão das obras e a venda da usina para a ArcelorMittal, a subsidiária brasileira pediu autofalência, em processo cuja lisura tem sido questionada por credores na Justiça. Além de enfrentar disputas no Judiciário, a empresa perdeu duas arbitragens internacionais, ambas reconhecendo dívidas junto a fornecedores brasileiros, mas recusou-se a cumprir as decisões. A Posco Brasil encerrou suas atividades sem manter representação no país.


