Estudo da Rank Certo mostra que 96,8% dos consumidores acreditam nas recomendações de IA e do Google, mas 94% mantêm o hábito de desconfiar e comparar preços antes de pagar
Antes do clique final que autoriza o cartão de crédito, existe um ritual silencioso feito por milhões de brasileiros todas as noites diante da tela acesa do celular.
É o gesto de abrir dezenas de abas, alternar entre comparadores, procurar fotos reais e ler relatos de desconhecidos para tentar estancar uma angústia moderna: o medo de ser passado para trás. Navegar pelo comércio eletrônico tornou-se uma jornada exaustiva de curadoria, onde a abundância de ofertas não gera certeza, mas paralisia.
Para mapear como esse ecossistema de busca e inteligência artificial atravessa o desejo e o bolso do consumidor, a Rank Certo, agência de Digital PR, realizou em parceria com a Opinion Box o estudo “Da busca à recomendação: como Google e IA influenciam as compras dos brasileiros“.
O levantamento ouviu 250 pessoas e revela um retrato de contradições: embora 96,8% dos entrevistados afirmem que confiam nas sugestões de produtos apresentadas pelo Google, essa fé não é cega. Nada menos que 94% dos pesquisados mantêm a rotina de checar preços e condições em múltiplos sites antes de fechar o pedido.
A multidão de estranhos vale mais do que a força de um logotipo
A maior fratura observada no comportamento de compra atual está na perda de soberania das grandes marcas. Quando o usuário pesquisa um item, o preço continua no topo das prioridades (mencionado por 70,8%), mas a opinião de outros compradores vem logo atrás, apontada por 64,4% da amostra.
O peso da reputação construída por pares atropelou o prestígio das empresas: a marca do produto foi citada como fator determinante por apenas 24,8% das pessoas.
Essa dependência da “prova social” é tão implacável que 91,6% dos participantes admitiram já ter desistido sumariamente de uma compra após encontrar um único relato negativo na rede.
“A tela não elimina a solidão de quem compra; ela só aumenta o receio de errar. O consumidor aprendeu a usar o motor de busca e a inteligência artificial como uma espécie de filtro prévio para organizar o caos, mas a decisão final é um ato de autoproteção. O comprador moderno não quer o discurso pronto da publicidade, ele busca a validação de quem já pisou naquela bola. Uma avaliação ruim de um anônimo desfaz meses de construção de marca em poucos segundos”, afirma Felipe Cardoso, CEO da Rank Certo.
O desejo mapeado em pixels: do celular da moda ao arroz do mês
O levantamento mostra que a necessidade de consultar o ecossistema digital se concentra com mais força nos bens de maior valor e complexidade técnica, mas já infiltrou o consumo cotidiano. Quando questionados sobre o que mais pesquisam antes de comprar, 75,2% dos consumidores citaram eletrônicos, seguidos por roupas e calçados (64,4%), cosméticos (42,4%) e móveis ou decoração (41,2%).
O impacto dessa mediação algorítmica é palpável: 78,8% das pessoas entrevistadas confirmaram já ter comprado ao menos um produto influenciadas diretamente por uma recomendação surgida na busca.
“Ninguém acorda querendo ‘comparar especificações técnicas’. As pessoas querem saber se aquele fone vai durar na corrida ou se aquela geladeira cabe na cozinha pequena. A busca mudou porque a dúvida mudou: o público pesquisa por vídeos de unboxing, testes reais e resenhas francas. Quando a plataforma entrega essa resposta de forma honesta, o algoritmo deixa de ser uma ferramenta fria e passa a ser a ponte que autoriza o gasto”, pontua Cardoso.
A ilusão do controle e os limites da inteligência artificial
Com a chegada de recursos generativos que resumem buscas e antecipam respostas, a sensação de personalização se consolidou: 73,6% dos consumidores sentem que os resultados apresentados são feitos sob medida para eles.
Além disso, 91,6% dizem que a IA facilita a vida ao encurtar caminhos, com 57,2% atribuindo notas 4 ou 5 (em uma escala até 5) para a capacidade da tecnologia de influenciar suas escolhas (média de 3,57). No entanto, a pesquisa deixa evidente a linha tênue entre a ajuda do robô e a autonomia humana. A tecnologia limpa o terreno, mas não assina o cheque.
“A inteligência artificial é uma excelente arrumadora de prateleiras: ela organiza a bagunça da internet e entrega tudo mastigado. Mas existe um limite claro onde a tecnologia para e a vida real começa. O algoritmo pode sugerir o produto ideal, só que ele não garante a entrega no prazo, não paga o frete e não substitui a confiança na loja. O consumidor aceita a ajuda da máquina para economizar tempo, mas guarda para si o direito final de duvidar e escolher”, conclui o CEO da Rank Certo.

