
Celebração marca uma década da checagem no Brasil, período de avanço na desinformação como estratégia de poder e debates com big techs
Plataforma pioneira ao unir checagem de fatos e tecnologia no Brasil, Aos Fatos completa dez anos de olho no futuro, mas sem perder de vista seu legado para a verdade na política. Desde que foi lançado, em 7 de julho de 2015, Aos Fatos já fez mais de 19.000 checagens, dentre declarações de políticos de todos os lados do espectro político e desinformação viral nas redes sociais. A plataforma também contribuiu para o acesso à informação verificada na última década ao desenvolver soluções inovadoras como a Fátima, chatbot com inteligência artificial generativa que, neste aniversário, passa a integrar as páginas do site do Aos Fatos e aprofundar o contexto de checagens e reportagens.
Os dez anos também consolidam as produções audiovisuais exclusivas do Aos Fatos, com o lançamento do primeiro documentário feito pela organização no segundo semestre de 2025.
Desde sua criação, o Aos Fatos acompanhou cinco eleições, monitorou declarações de quatro presidentes da República e desmentiu notícias falsas em momentos decisivos do país: de campanhas eleitorais a crises sanitárias. Foram 15.271 declarações checadas de 167 figuras públicas. Também foram verificadas 3.972 peças de desinformação virais. Desinformação política e eleitoral foram os temas predominantes, presentes em 2.105 delas. Outro tema de destaque é a saúde, foco de 594 checagens.
Já 2020, ano em que foi declarada a pandemia da Covid-19, teve o maior número de declarações checadas – 718 –, em um trabalho crucial para enfrentar discursos que pretendiam deslegitimar a vacinação em meio à crise sanitária.
“Aos Fatos completa uma década de combate à desinformação com impacto consolidado. Além de ter contribuído para a construção de políticas públicas que fomentam iniciativas de integridade da informação, como colaborações com o Tribunal Superior Eleitoral e o Conselho Nacional de Justiça, apenas para mencionar alguns, o jornalismo do Aos Fatos foi decisivo nas apurações pela responsabilização dos envolvidos nos impactos danosos da pandemia de Covid-19 e no 8 de Janeiro. A prova da nossa relevância é comprovada pelo relatório anual do Reuters Institute: 36% das pessoas no país recorrem a sites de checagem para combater ativamente informações falsas”, diz Tai Nalon, diretora executiva e cofundadora do Aos Fatos.
O período teve ainda outros marcos. Uma das verificações de maior alcance da plataforma foi publicada horas após o assassinato de Marielle Franco e desmentia vínculos da vereadora com o crime organizado. A publicação do Aos Fatos foi fundamental em meio à escalada de desinformação sobre o caso: dias depois, relatório da FGV-Dapp mostrou que o desmentido havia superado, no Twitter, os boatos sobre Marielle. O impacto foi tão significativo que, meses depois, o Facebook anunciou a antecipação do lançamento de seu programa de checagem de fatos no Brasil.
Outro levantamento de destaque foi a cobertura dos 1.459 dias de governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, período em que a plataforma compilou e checou 1.610 declarações do ex-mandatário – as quais somam 6.685 afirmações falsas ou distorcidas. Dados do Aos Fatos mostram que Bolsonaro mentiu ao menos quatro vezes por dia, em média, durante seu governo.
O trabalho da organização incomodou grupos de poder. Investigação recente da Polícia Federal mostrou que a plataforma foi alvo de espionagem da “Abin paralela” — esquema que usou ilegalmente a estrutura da Agência Brasileira de Inteligência para monitorar pessoas e entidades tidas como desafetos pela gestão do ex-presidente.
Em dez anos, o Aos Fatos também viu aumentarem os desafios no combate à desinformação nas redes sociais, em cenário marcado por ataques das big techs às plataformas de checagem. Mark Zuckerberg, da Meta – que controla redes como o Facebook, Instagram e WhatsApp – anunciou neste ano que encerraria seu programa de parceria com serviços de checagem e afirmou que os fact-checkers eram enviesados. A medida foi adotada em aceno ao presidente dos EUA, Donald Trump. Estudos sobre o impacto da checagem, no entanto, têm ressaltado a importância dessa ferramenta contra a desinformação – um deles, feito com experimentos simultâneos em quatro países, mostrou que as verificações reduziram crenças falsas em todos eles. Meta-análise de 2019 sobre a eficácia da verificação de fatos, envolvendo mais de 20.000 pessoas, também constatou influência significativamente positiva sobre crenças políticas, mostrando que a ferramenta ajuda a reduzir o impacto de afirmações falsas.
Plataforma lança nova versão do robô Fátima, que detecta desinformação
Em meio a esses desafios, a plataforma apresenta, em 7 de julho – data do aniversário do Aos Fatos – a nova versão da Fátima, a robô checadora criada em 2019 e vencedora de vários prêmios, como o Cláudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados e o Digital Media Américas 2024, nas categorias de melhor uso de inteligência artificial na redação e melhor iniciativa de fact-checking. A ferramenta, com mais de 610 mil interações nos últimos doze meses, permite aos usuários acesso à informação verificada e contextualizada na hora em que desejarem.
O bot, que originalmente funcionava por interação de perguntas e respostas, passará a atuar dentro do site para oferecer informações complementares sobre os assuntos abordados caso haja interesse do leitor.
O lançamento reflete o investimento contínuo do Aos Fatos em tecnologia de combate à desinformação desde sua fundação. Além da Fátima, o núcleo de inovação Aos Fatos Lab criou outros projetos pioneiros no jornalismo, como o Radar, que automatizou a detecção de desinformação em múltiplas plataformas e venceu o Prêmio Gabo de Inovação em 2020. Foi com dados do Radar que o Aos Fatos produziu o Golpeflix, um catálogo digital da desinformação online que insuflou a tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023.
A mesma equipe ainda desenvolveu o Escriba, ferramenta aberta ao público que transcreve áudios e vídeos em mais de 90 idiomais e que foi finalista do prêmio Cláudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados. Desde seu lançamento, a plataforma acumula mais de 20 mil usuários e 50 mil horas de conteúdo transcritos.

