
Os estágios não remunerados em organizações internacionais, como ONU, OEA e outras instituições de renome, são frequentemente considerados como uma “porta de entrada” indispensável para avançar em carreiras globais. No entanto, essa prática perpetua desigualdades e exclui jovens de baixa renda e imigrantes, principalmente aqueles vindos de países do sul global. Segundo Gabrielle Hayashi Santos, consultora de educação internacional, “aceitar um estágio não remunerado é um privilégio inacessível para muitos. Organizações localizadas em cidades caras, como Genebra e Nova York, excluem aqueles que não têm apoio financeiro para se manter durante o período de trabalho, criando uma dinâmica de exclusão.”
Uma pesquisa do Global Internships Survey revelou que cerca de 56% dos estagiários internacionais não recebem qualquer compensação financeira. Nos setores de relações internacionais e diplomacia, a proporção é ainda maior, com muitas dessas oportunidades concentradas em cidades com alto custo de vida. O relatório apontou que, enquanto jovens de famílias ricas conseguem arcar com custos como moradia, alimentação e transporte, os que vêm de contextos menos favorecidos são excluídos ou forçados a aceitar condições insustentáveis, afetando seu desempenho e saúde mental.

A justificativa frequentemente usada por essas organizações é que o ganho vem da experiência adquirida, mas, como destaca Hayashi Santos, “essa narrativa ignora o custo real de participar de um estágio não remunerado. Muitos jovens de baixa renda simplesmente não têm como se sustentar, o que acaba reforçando a ideia de que essas oportunidades são reservadas para aqueles que têm apoio financeiro.”
Além disso, os estágios em organizações internacionais costumam exigir dedicação integral de 40 horas por semana, o que torna impossível que os estagiários conciliem o trabalho com outro emprego remunerado para cobrir suas despesas. Em algumas situações, mesmo os estágios de meio período não oferecem a flexibilidade necessária para que a pessoa consiga se manter financeiramente.
Essa dinâmica cria o que Hayashi chama de “barreiras invisíveis”, que continuam a excluir jovens talentosos, mas sem recursos financeiros, de participar plenamente da arena internacional. “O resultado é que muitas dessas oportunidades são monopolizadas por pessoas com recursos, perpetuando uma estrutura de privilégio que essas organizações deveriam combater,” afirma a consultora.
A pesquisa da Global Internships Survey também destaca que, apesar de movimentos crescentes contra os estágios não remunerados, muitas dessas organizações continuam a ignorar o impacto social de suas políticas. Os efeitos dessa exclusão são profundos: jovens de origem humilde não só enfrentam as barreiras habituais de acesso à educação e oportunidades, mas também têm de competir num campo de jogo desigual, onde quem pode se dar ao luxo de trabalhar sem remuneração leva uma vantagem injusta.
Para garantir que o futuro da liderança global seja realmente diverso e representativo, as organizações internacionais têm uma grande responsabilidade em promover o acesso inclusivo. Como conclui Hayashi Santos: “Se queremos construir um mundo mais equitativo, precisamos falar seriamente sobre estágios não remunerados e criar soluções que permitam que jovens de diferentes origens possam crescer e competir em condições mais justas.”
Caso tenha interesse na pauta, fico à disposição para fazer a ponte de entrevista com a porta-voz (perfil abaixo):
Gabrielle Hayashi Santos
Formada em Relações Internacionais pela UNISAGRADO, doutoranda em Política de Educação Internacional e consultora em Educação e Internacionalização de Carreiras. Gabrielle, tem 26 anos, já conquistou mais de 20 bolsas de estudos internacionais para realizar programas de estudo e trabalho no exterior, possui mestrado em Desenvolvimento e Governo pela bolsa DAAD Helmut Schmidt do DAAD, realizou estágios na Organização das Nações Unidas (ONU), Organização dos Estados Americanos (OEA) e Young America Business Trust (YABT) e atualmente é aluna do primeiro ano de PhD na University of Maryland em Política

