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Você sabe quem foi Laudelina de Campos, a ativista que, em 1936, transformou a vida de empregadas domésticas no Brasil?

Rita Moraes
Rita Moraes
Publicado 10 de outubro de 2025
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Conheça mais sobre a história dessa mulher que transformou um sindicato em um projeto de vida

 

Conheça a história daquela que abriu caminhos até a conquista da PEC das Domésticas, em 2013

 

A luta de Laudelina era prática e nascia de sua própria experiência. Nascida em 1904, na cidade de Poços de Caldas (MG), começou a trabalhar como empregada doméstica aos sete anos. Mesmo após se formar professora, viu o racismo impedi-la de lecionar, sendo empurrada de volta ao serviço doméstico. A discriminação dupla, de raça e de gênero, moldou sua visão.

 

A associação que fundou não se limitava a reivindicar melhores salários. Funcionava como uma rede de apoio integral. Ela organizou um clube de lazer para as trabalhadoras, um espaço onde podiam socializar e se reconhecer como comunidade, rompendo o isolamento característico da profissão. Mais tarde, criou uma creche para que as mães trabalhadoras tivessem onde deixar seus filhos, um problema que ela mesma enfrentara. Laudelina entendia que a emancipação passava por garantir direitos trabalhistas, mas também por assegurar dignidade e condições de vida.

 

Ela combatia a invisibilidade. Em uma época em que as domésticas sequer eram reconhecidas pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) de 1943, sua associação foi um ato revolucionário de reconhecimento: o serviço doméstico é trabalho, e quem o executa merece respeito. Ela abriu as portas para a organização coletiva, mostrando que empregadas domésticas podiam e deviam ser protagonistas de suas próprias histórias. Sua luta era, acima de tudo, antirracista, pois desmontava a ideia de que mulheres negras deveriam servir sem questionar.

 

Baile da Pérola Negra. Restaurante Armorial, São Paulo, SP, 1957. Fotografia analógica / Autoria não identificada. Acervo Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Campinas / Divulgação Instituto Moreira Salles

O legado de Laudelina

Essa trajetória de resistência, que incluiu a refundação do sindicato sob a ditadura do Estado Novo e sua persistência mesmo com a perseguição política, pavimentou o caminho para que, em 2013, a Emenda Constitucional 72 fosse promulgada. Conhecida como PEC das Domésticas, ela estendeu direitos fundamentais como FGTS, hora extra, seguro-desemprego e limitação da jornada a milhões de trabalhadoras. A PEC não caiu do céu; foi conquistada sobre o alicerce construído por Laudelina e pelas gerações de mulheres que, inspiradas por ela, continuaram a lutar.

 

Dona Zica, associada da ONG CRIOLA e uma das lideranças que fundaram, nos anos 1980, o Sindicato dos Trabalhadores Domésticos do Município do Rio de Janeiro, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Partido dos Trabalhadores (PT), reflete sobre esse legado: “Laudelina nos ensina que a liberdade é uma construção coletiva. Ela desafiou sozinha a estrutura racista e patriarcal que relegava as mulheres negras aos cantos da sociedade. Sua coragem ao criar o primeiro sindicato foi um ato de afirmação da humanidade dessas trabalhadoras. A PEC é a materialização contemporânea desse sonho, uma vitória que carrega o DNA da sua luta pioneira pela cidadania plena para todas nós”.

 

A luta atual contra o racismo

Hoje, mesmo com os avanços, a batalha pela valorização da categoria continua, com a informalidade e o racismo como obstáculos centrais. Mas celebrar Laudelina, que se estivesse viva faria aniversário no próximo dia 12 de outubro, é lembrar que uma mulher negra, com raízes na escravidão, mudou os rumos do trabalho doméstico no Brasil, transformando servidão em profissão.

 

Lúcia Xavier, coordenadora geral da ONG CRIOLA, organização que, há mais de 30 anos, luta pelos direitos de meninas e mulheres negras, fala sobre a importância de Laudelina para a causa. “Laudelina representa, no campo da atuação política das mulheres negras, um ícone da atuação coletiva. Ela não agiu somente olhando para si, mas para todo o conjunto de mulheres que, como ela, enfrentava aquela mesma situação de degradação e de trabalho precário. Nesse sentido, quando ela funda um sindicato, uma associação das trabalhadoras, e traz para o convívio social as mulheres negras na condição de trabalhadoras domésticas, ela inverte o processo político, constituindo coletivos, associações, trabalho gerado por todas elas para alcançar seus direitos”, analisa.

 

O legado de Laudelina é um projeto vivo. Ela não fundou apenas um sindicato, mas uma possibilidade, cultivada por gerações, que segue florescendo na luta por um país que um dia reconheça o trabalho no lar como sinônimo de dignidade e igualdade.

 

Sobre CRIOLA

CRIOLA é uma organização da sociedade civil fundada em 1992 e conduzida por mulheres negras. Atua na defesa e promoção de direitos das mulheres negras em uma perspectiva integrada e transversal, tendo por missão trabalhar para a erradicação do racismo patriarcal cisheteronormativo, contribuindo com a instrumentalização de meninas e mulheres negras, cis e trans, para a garantia dos direitos, da democracia, da justiça e pelo Bem Viver.

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