Especialistas da Sociedade Brasileira de Artroscopia e Traumatologia do Esporte podem explicar tratamento e risco de sequelas
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O jogador Jamal Musiala, do Bayern de Munique, sofreu uma grave fratura- luxação no tornozelo esquerdo, que envolveu a fratura da fíbula, o osso lateral da perna, e o deslocamento da articulação do tornozelo. A lesão aconteceu durante uma partida em que o atleta sofreu um forte impacto na região, possivelmente após uma disputa de bola ou torção no gramado, o que é comum em jogos de alto nível.
Logo após o lance, Musiala caiu com fortes dores e precisou ser retirado de campo, levantando preocupações imediatas. Exames confirmaram a gravidade da lesão, que exigiu uma cirurgia com fixação por placa e parafusos.
O Dr. Vitor Miranda, membro titular da Sociedade Brasileira de Traumatologia do Esporte (SBRATE), comenta de maneira clara e completa sobre a lesão que tirou Musiala provisoriamente dos campos.
– Qual a gravidade da fratura sofrida por Musiala, envolvendo fíbula e tornozelo?
A lesão sofrida pelo atleta Musiala, do Bayern de Munique, foi uma fratura- luxação do tornozelo esquerdo. Segundo o próprio clube, que divulgou a informação em sua conta oficial no X, trata-se de uma fratura da fíbula com luxação do tornozelo. É uma lesão grave, de tratamento cirúrgico obrigatório. Vou explicar um pouco como essa cirurgia é realizada.
– Como é feita a cirurgia nesses casos?
A cirurgia é feita de forma convencional, ou seja, é necessário abrir a região da fratura, especialmente na fíbula, que é o osso lateral do tornozelo. É feito um corte na pele, alcança-se a fratura e realiza-se a redução — que é o reposicionamento do osso na sua posição original. Em seguida, a fratura é fixada com placa e parafusos.
Após essa fixação, o cirurgião avalia se há outras lesões associadas. No caso do Musiala, é bem provável que tenha havido uma lesão na articulação entre a fíbula (que foi fraturada) e a tíbia, que é o osso principal da perna. Essa articulação se chama sindesmose.
Durante a cirurgia, é importante avaliar se houve instabilidade da sindesmose, assim como possíveis lesões do ligamento interno do tornozelo. Quando ocorre uma luxação com deslocamento importante, como no caso dele, é bem possível que haja uma ruptura desse ligamento. Essa avaliação é feita no intraoperatório.
Feita a redução e fixação, realiza-se o fechamento da pele. O paciente permanece imobilizado por um breve período — apenas alguns dias — e já se inicia a reabilitação de acordo com a tolerância e resposta ao tratamento. Se o tornozelo estiver estável e sem dor, a reabilitação e até mesmo o apoio do pé no chão podem começar precocemente, geralmente em até duas semanas.
– Qual o tempo estimado de recuperação?
Já tivemos diversos atletas com lesões semelhantes na história recente do futebol. Em 2019, por exemplo, o jogador Diego Ribas teve uma lesão muito parecida e voltou a jogar em quatro meses. O tempo médio de recuperação gira em torno de seis meses.
Claro que isso varia conforme a resposta individual ao tratamento fisioterápico — pode ser um pouco mais rápido ou mais lento.
Importante frisar: são seis meses para voltar a jogar, de fato — entrar em campo, participar de partidas. O retorno aos treinos costuma ocorrer com quatro ou cinco meses de pós-operatório, com recuperação da condição cardiovascular e recondicionamento muscular.
– Que cuidados são fundamentais no pós-operatório imediato e durante a reabilitação?
Os cuidados nas duas primeiras semanas são cruciais para uma boa cicatrização da pele. A pele do tornozelo cicatriza mais lentamente do que outras regiões do corpo, e, por ter pouco tecido subcutâneo, se não cicatrizar bem, pode causar infecção — o que seria um grande problema.
Por isso, nas primeiras semanas, o paciente deve manter repouso relativo, evitando colocar carga no pé e mantendo-o elevado. Às vezes, também é necessário imobilizar.
Após a cicatrização da pele e com sinais de consolidação óssea — geralmente entre três e seis semanas — a reabilitação começa a ganhar mais intensidade, com a retirada da imobilização, início dos exercícios de fortalecimento e aumento gradual da carga.
Dois cuidados são fundamentais durante todo o processo: o primeiro é o controle da dor, desde o início. Isso pode ser feito com medicamentos, bloqueios anestésicos, entre outros recursos. O segundo é a prevenção de infecções nas fases iniciais, até a retirada dos pontos.
– Quais os riscos de retorno precoce às atividades esportivas após esse tipo de lesão?
O principal risco é a consolidação inadequada do osso, que pode gerar dor articular ou instabilidade no tornozelo. Isso aumenta a vulnerabilidade a traumas repetitivos.
O futebol, em particular, expõe bastante o tornozelo a impactos — tanto por contato direto em disputas quanto por torções ao pisar no gramado irregular.
É importante destacar também que a luxação, embora o termo pareça indicar algo simples, é uma lesão grave. A luxação envolve deslocamento articular e, frequentemente, exige tratamento cirúrgico.
– Há chances de sequelas funcionais ou limitação de desempenho no futuro?
A fratura com luxação é uma lesão que pode ter fatores de pior prognóstico, principalmente quando há lesão associada da cartilagem — algo que, às vezes, só é identificado mais tarde.
No entanto, há muitos casos de atletas que sofreram fraturas semelhantes e se recuperaram plenamente. Podemos citar Diego Ribas, Juninho Paulista e Rogério Ceni, todos com desfechos positivos.
A chance de retorno ao alto rendimento sem sequelas é muito boa.
Claro que existe risco de complicações, como em qualquer cirurgia ortopédica, mas o prognóstico da fratura-luxação do tornozelo é, em geral, favorável.

