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Sob o domínio do mal. Artigo do jornalista Alex Ferraz

Tive o imenso prazer de trabalhar por cerca de três anos com o saudoso e genial João Ubaldo Ribeiro, na Tribuna da Bahia, no final da década de 1970, quando eu, mal saído da adolescência, já exercia cargos de editorias no jornalismo.
 
Convivendo com Ubaldo, inclusive em alguns momentos fora do jornal, em encontros de lazer que ele organizava com outros colegas e amigos do quilate de Glauber Rocha, por exemplo, tive a oportunidade de aprender com a sua sabedoria e, por que não, com o sarcasmo que muitas vezes pontilhava suas sábias observações.
 
Assim, lembro-me que, uma vez, quando fazíamos ironias acerca de estatísticas, ele disse: “Eu sou capaz de fazer estatísticas incontestáveis. Por exemplo, todas as pessoas que morrem de câncer bebiam água diariamente. “
 
Pois é, grande Ubaldo, você nos deixou mas aqui neste mundinho seguem cada vez mais específicas essas tais estatísticas, no mais da vezes manipuladas para servirem a interesses inconfessáveis.
 
No Brasil, então, essa  coisa viceja de forma impressionante.
Agora mesmo, vejo o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles, candidato do MDB à presidência, afirmar de forma peremptória que tirou o Brasil “da maior recessão da sua história.” E tome-lhe resultados de estatísticas (muito mais virá durante a campanha) mostrando crescimento econômico, queda no desemprego etc.
 
Não pretendo aqui detalhar esses números e percentuais, principalmente por levar em conta que em nosso país governos fazem o que querem e bem entendem com os chamados “dados oficiais”, dos quais lamentavelmente se alimenta a grande maioria da mídia para produzir manchetes.
 
Essa situação nos leva, por exemplo, a confrontos entre os números oficiais  – sejam de prefeituras, estados ou governo central – e a realidade concreta à nossa volta que beiram a esquizofrenia.
 
Enquanto autoridades anunciam a “redução” da criminalidade, ao tirarmos a vista da TV ou das manchetes de jornais e sites comemorando o feito (sic) e olharmos pela janela da vida real, o que vemos são cadáveres  crivados de bala, bancos explodidos, bairros e até cidades inteiras dominados pelo crime.
 
Assim, quando ouço Meirelles e tá tantos outros do poder se gabarem de ter tirado o país da crise, involuntariamente desvio os olhos das manchetes e percorro a vista pelas centenas de lojas fechadas na cidade, inclusive nos grandes shoppings; da mesa onde degusto uma cerveja no Centro da metrópole, vejo dezenas de pessoas mendigando ou, no máximo, vendendo frutas colhidas em terrenos baldios dispostas num carrinho de mão, para, talvez, obterem um “lucro” de 20 reais no fim do dia e gastar parte dele na passagem de um ônibus que quase sempre é assaltado; muitas dessas pessoas circundam bares e restaurantes ao meu redor, em humilhante tocaia para tentar comer restos deixados nos pratos.
 
Aguçando mais o olhar, percebo como a grande maioria do povo comum está cada vez mais mal vestida, usando sandálias de borracha que já mostram até o início do furo no dedão, visto que já foram por demais usadas. Vestem bermudas ou calças rota e quase sempre usam camisas de antigos carnavais ou outros eventos.
 
Aqueles que ainda têm a “sorte” de receber um salário mínimo, usam as moedas que lhes restam para “fartar-se” comendo pastel de um real e um refresco em lugar de um almoço digno, comidas (?) que proliferam cada vez mais nas ruas das grandes cidades e que, obviamente e sem necessidade de estatísticas, arrasam com a saúde que resta à população.
 
Então, caros leitores, pergunto: onde está, na vida real, extrapalaciana, a “recuperação” do país?
 
Aí, os poderosos que se lucupletam através do erário podem argumentar que devemos ter paciência, que a coisa demora para acontecer etc.
 
Ora, nas minhas décadas de jornalismo já me saturei de ouvir tais argumentos, da espera eterna por “novos tempos”, enquanto o abismo social só faz crescer.
 
Senhores que vivem nos palácios de governos e em secretarias e ministérios, sejam sensatos. Venham às ruas, ao sertão, aos guetos e deixem de lado essa síndrome de Maria Antonieta. O povo não tem dinheiro para brioches. E, para a sorte de vocês, a guilhotina é hoje peça de museu. 

Artigo do jornalista Alex Ferraz

POR: Rita Moraes
Publicado em 06/08/2018