No dia 30 de março é celebrado o Dia Internacional do Lixo Zero. A data foi oficializada em 2022 pela Organização das Nações Unidas (ONU) para promover o consumo consciente, produção sustentável e a economia circular e trazer a conscientização sobre a redução de resíduos. A iniciativa também busca alertar para o crescimento da geração de lixo no mundo. Segundo estimativas, a produção global de resíduos pode chegar a cerca de 3,8 bilhões de toneladas por ano até 2050, caso não sejam adotadas medidas mais sustentáveis.
No Brasil, esse cenário reflete os desafios da gestão de resíduos, e evidencia a necessidade de empresas que insiram práticas sustentáveis e o tratamento adequado. São geradas aproximadamente 170 mil toneladas de resíduos têxteis todos os anos e apenas 20% são reciclados. Os demais, 135 mil toneladas, acabam nos aterros sanitários ou no meio ambiente. Dados do Sebrae e do relatório Fios da Moda ainda indicam que 80% dessas 170 mil toneladas são descartadas indevidamente.

Segundo a diretora de ESG da Retec, empresa especializada em gerenciamento de resíduos, Ticiana Carvalho, os erros mais recorrentes na gestão ainda estão ligados à ausência de uma visão sistêmica dentro da estratégia do negócio. “Muitas empresas tratam o tema apenas como uma obrigação operacional, e não como um pilar de sustentabilidade e eficiência”, explica Ticiana.
A diretora ainda destaca dois pontos críticos: a segregação inadequada na fonte, que compromete todo o ciclo de reciclagem e destinação correta, e a falta de rastreabilidade, fator que expõe as empresas a riscos legais e reputacionais, especialmente diante da responsabilidade compartilhada prevista na legislação ambiental brasileira. Além disso, ainda é comum vermos empresas priorizando custo imediato em detrimento de soluções ambientalmente adequadas, o que, no médio prazo, pode gerar passivos ambientais e financeiros relevantes”, pontua Ticiana.
Na contramão desses números, a Polo Salvador indústria têxtil de confecção, por exemplo, se tornou destaque no setor industrial baiano e brasileiro por suas práticas sustentáveis. Localizada no Condomínio Bahia Têxtil, bairro do Uruguai, em Salvador, a empresa está há quase 30 anos atuando no ramo e atualmente produz cerca de 1.500 camisas polo por dia para fardamentos corporativos. A instituição realiza mais de 50 ações socioambientais, do chão de fábrica ao produto final e entre elas está a destinação correta dos resíduos gerados pela empresa.
O geólogo, ambientalista e diretor da empresa, Hari Hartmann, conta que seria impensável a criação de um negócio que não considerasse essa pauta. “Nós valorizamos o meio ambiente e nossas práticas reforçam o nosso compromisso com aquilo que acreditamos. Na Polo, nós captamos água da chuva para usar em descargas e para regar plantas, por exemplo. Os resíduos orgânicos são usados para compostagem e recicláveis são retirados diversas vezes ao mês por uma cooperativa parceira. Todas essas ações são possíveis para negócios de qualquer porte”, afirma Hari Hartmann.
Além disso, a Polo pratica logística reversa, coletando camisas polo usadas que valem desconto na compra de novas. Essas peças são somadas às sobras de tecido da produção, que são transformadas em retalhos e destinadas à uma creche parceira que produz estopas para comercialização. Por mês são coletados 1000 quilos de tecido, em média. Há ainda as sobras de golas e punhos do processo produtivo das camisas, que são transformadas em sacos de dormir na própria fábrica e posteriormente doados a instituições de ressocialização que atendem pessoas em situação de rua.
“Nossa intenção é dar um destino responsável aos materiais, transformando resíduos em oportunidades. Assim reduzimos os impactos ambientais e, ao mesmo tempo, geramos valor social, fortalecendo a economia circular e o trabalho local”, conta Hari Hartmann.
De acordo com Ticiana, O Dia Internacional do Lixo Zero vai além de uma data simbólica, atua como um catalisador estratégico para acelerar mudanças reais na forma como empresas e sociedade lidam com os seus resíduos. Segundo ela, “para o setor empresarial, a data cria um ambiente de pressão positiva, tanto regulatória quanto reputacional, estimulando o avanço para práticas efetivas de gestão, com metas e transparência. Crescendo a demanda por soluções técnicas especializadas, capazes de garantir não apenas a destinação adequada, mas a rastreabilidade, a valorização dos resíduos e a conformidade com a legislação ambiental”, informa Ticiana Carvalho, diretora de ESG da RETEC.
DICAS PARA EMPRESAS QUE QUEREM COMEÇAR PRÁTICAS ESG
Pequenas empresas podem avançar significativamente com medidas de baixo investimento e alto impacto. A seguir, a diretora de ESG da RETEC, Ticiana Carvalho, deixa algumas dicas:
1 -Organização interna da geração de resíduos, com separação básica entre recicláveis, orgânicos e rejeitos. Isso, por si só, já melhora a destinação e reduz custos operacionais.
2 – Parcerias com cooperativas e empresas especializadas permitem uma destinação adequada sem necessidade de grandes estruturas próprias.
3- Educação e sensibilização da equipe, que muitas vezes não exige investimento financeiro, mas sim direcionamento e consistência.
“Hoje, existem também soluções acessíveis de gestão e rastreabilidade, que permitem às pequenas empresas atenderem às exigências legais e evoluírem em suas práticas ESG de forma estruturada” finaliza Ticiana.
Foto Ticiana: Divulgação
Foto Hari: Thiago Rosarii

