Novas terapias-alvo, radioligantes mais potentes e até a possibilidade de interromper tratamentos contínuos movimentam o maior congresso de oncologia do mundo
Na oncologia, poucos congressos têm tanto poder de influenciar a prática clínica quanto a reunião anual da American Society of Clinical Oncology. E, em 2026, uma das áreas mais movimentadas deve ser justamente a de tumores geniturinários, especialmente câncer de próstata, bexiga e rim.
Os estudos apresentados este ano mostram uma oncologia cada vez mais personalizada, menos centrada apenas em prolongar a sobrevida e mais preocupada em equilibrar eficácia, qualidade de vida e, em alguns casos, até a possibilidade de interromper tratamentos contínuos.
Para Denis Jardim, líder nacional da especialidade de tumores urológicos da Oncoclínicas, alguns trabalhos têm potencial real de mudar a forma como essas doenças são tratadas nos próximos anos.
“Estamos vendo uma evolução muito importante em diferentes cenários: desde pacientes com doença localizada de alto risco até aqueles com câncer metastático avançado. É uma ASCO que traz discussões sobre intensificação terapêutica, medicina de precisão e até desintensificação em pacientes que respondem muito bem”, afirma.
Estudo que pode mudar o tratamento do câncer de próstata antes da cirurgia
Entre os trabalhos mais aguardados de toda a ASCO está o estudo PROTEUS, escolhido para a sessão plenária, o espaço mais prestigiado do congresso. O estudo de fase 3 avalia o uso de apalutamida combinada à terapia hormonal antes e depois da cirurgia em pacientes com câncer de próstata localizado de alto risco.
Hoje, o padrão costuma ser operar primeiro e decidir tratamentos complementares posteriormente, dependendo do risco de recorrência. O PROTEUS pode mudar essa lógica. “A ideia é entender se tratar antes da cirurgia, com bloqueio hormonal intensificado, melhora significativamente os resultados oncológicos. Se o estudo for positivo, existe potencial para mudança de paradigma”, explica Denis Jardim.
Na prática, isso significaria adotar uma estratégia mais agressiva já no início do tratamento para pacientes com maior risco de progressão.
Terapias-alvo avançam para pacientes com mutação BRCA
Outro destaque importante é o TALAPRO-3, estudo que avalia a combinação de talazoparibe, um inibidor de PARP, com enzalutamida em pacientes com câncer de próstata metastático hormônio-sensível portadores de alterações genéticas relacionadas ao reparo do DNA, como mutações em BRCA.
Esse grupo de pacientes costuma ter tumores mais agressivos e respostas menos duradouras aos tratamentos convencionais. “Os pacientes com alterações em genes de reparo geralmente têm pior prognóstico. O talazoparibe já demonstrou atividade importante e esse estudo pode consolidar uma nova estratégia de tratamento personalizado”, afirma o oncologista.
O avanço reforça uma tendência cada vez mais forte na oncologia: usar o perfil molecular do tumor para definir terapias mais eficazes e individualizadas.
Pausa terapêutica pode virar uma possibilidade
Um dos destaques da edição está na discussão do estudo A-DREAM, que investiga se alguns pacientes com câncer de próstata metastático podem interromper temporariamente a terapia hormonal sem perder controle da doença.
A proposta surge em um contexto em que os tratamentos se tornaram tão eficazes que alguns pacientes alcançam respostas profundas e prolongadas.
“Hoje, o bloqueio hormonal costuma ser contínuo e pode trazer impactos importantes na qualidade de vida, como fadiga, perda de libido, alterações metabólicas e cardiovasculares. Então, existe um interesse crescente em entender se alguns pacientes poderiam fazer pausas terapêuticas com segurança”, explica Denis Jardim.
Embora ainda preliminar, a discussão representa uma mudança importante de mentalidade: não apenas viver mais, mas viver melhor.
Radioligantes entram em nova fase
Outro tema que deve ganhar atenção é a evolução dos radioligantes no câncer de próstata. Um estudo de fase 1 apresentará resultados do Actinium-PSMA617, nova geração de terapia direcionada ao PSMA, proteína altamente expressa em muitos tumores prostáticos.
A estratégia funciona como uma espécie de “radiação inteligente”, que leva partículas radioativas diretamente às células tumorais.
“Atualmente já temos o Lutécio-PSMA, que trouxe resultados muito relevantes. O Actinium surge como uma nova geração, potencialmente ainda mais potente”, diz o especialista.
Uma nova expectativa para o câncer de bexiga
No câncer de bexiga metastático, os novos dados do estudo EV-302 também devem chamar atenção. O trabalho já havia mudado o tratamento padrão ao mostrar que a combinação de enfortumabe vedotina e pembrolizumabe era superior à quimioterapia tradicional.
Agora, os pesquisadores apresentam um seguimento mais longo, de três anos e meio, algo essencial para entender a durabilidade das respostas. “A grande pergunta agora é: existem pacientes que podem permanecer em resposta completa por longos períodos, talvez até sem necessidade contínua de tratamento? Isso começa a abrir discussões sobre possibilidades de cura em doença metastática”, afirma Denis Jardim.
A mesma combinação também vem mostrando resultados expressivos em pacientes com doença localizada submetidos à cirurgia, reforçando o avanço da imunoterapia em diferentes fases da doença.
Imunoterapia tenta consolidar espaço no câncer renal
Já no câncer de rim, um dos destaques será o estudo RAMPART, que avalia o uso de durvalumabe após cirurgia em pacientes com doença localizada de alto risco.
O cenário é particularmente relevante porque, apesar do pembrolizumabe já aprovado nesse contexto, outros estudos com imunoterapia tiveram resultados negativos nos últimos anos. “Se esse estudo for positivo, ele reforça a ideia de que existe, sim, um grupo de pacientes com câncer renal localizado que se beneficia de imunoterapia adjuvante”, explica o oncologista.
Mais do que apresentar novos medicamentos, a ASCO 2026 parece consolidar uma mudança mais ampla na oncologia geniturinária: tratamentos cada vez mais individualizados, guiados por perfil molecular, respostas profundas e impacto real na qualidade de vida dos pacientes.
Sobre a Oncoclínicas&Co
A Oncoclínicas&Co, um dos principais grupos dedicados ao tratamento do câncer no Brasil, oferece um modelo hiperespecializado e inovador voltado para toda a jornada oncológica do paciente. Presente em mais de 140 unidades em 49 cidades, a companhia reúne um corpo clínico formado por mais de 1.700 médicos especializados na linha de cuidado do paciente oncológico. Com a missão de democratizar o acesso à oncologia de excelência, realizou cerca de 593 mil tratamentos nos últimos 12 meses. Com foco em pesquisa, tecnologia e inovação, a Oncoclínicas segue padrões internacionais de alta qualidade, integrando clínicas ambulatoriais a cancer centers de alta complexidade, potencializando o tratamento com medicina de precisão e genômica. É parceira exclusiva no Brasil do Dana-Farber Cancer Institute, afiliado à Harvard Medical School, e mantém iniciativas globais como a Boston Lighthouse Innovation (EUA) e a participação na MedSir (Espanha). Integra ainda o índice IDIVERSA da B3, reforçando seu compromisso com a diversidade. A Oncoclínicas também mantém uma joint venture com o Grupo Al Faisaliah, da Arábia Saudita levando sua expertise oncológica para um novo continente. Saiba mais em: www.oncoclinicas.com.

