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DestaquesGeral

“A vida para”: Contra impunidade, moradores acionam Justiça por rotina de apagões no CE

Rita Moraes
Rita Moraes
Publicado 9 de dezembro de 2025
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Distribuidora de energia no Ceará, Enel foi multada em mais de R$ 58 milhões, mas quedas de energia continuam

Matéria produzida pela Agencia Publica

 

Por  Rafael Custódio| Edição: Ed Wanderley

Quando a energia elétrica acaba, o clima de preocupação é instalado. Mas a tensão passou a fazer parte da rotina dos funcionários da Casa Beneficente Padre Vicente Rodrigues da Silva, em Limoeiro do Norte (CE). A situação se repete semana a semana, segundo os moradores. A cada novo blecaute, a correria se instaura. É preciso agir rápido para preservar a saúde dos 42 moradores e avisar a distribuidora de energia, a Enel, sobre uma nova interrupção de energia. Os riscos são diversos, a começar pelo próprio calor do semiárido, que, na região, atinge a temperatura média de 27º e coloca em xeque o bem-estar dos pacientes, todos entre 60 e 98 anos. Os cuidadores se propõem a tentar prevenir mal-estares e lesões de pele como escaras, especialmente entre os oito acamados. De resto, é aguardar. Muito. Em casos de emergência assim, segundo a Agência Reguladora do Estado do Ceará (Arce), a espera média atual está acima das sete horas – e passando de nove no ano passado.

“Imagina um acamado ficar sem energia, ou sem um ambiente climatizado?”, protesta o administrador da instituição, Fernando Ângelo da Silva. Segundo ele, parte dos pacientes lamenta mais um apagão e sempre questiona: “será que vai demorar?”. Os demais ficam perdidos no contexto, sem entender claramente o que aconteceu, já que a maioria lida com a doença de Alzheimer. Silva conta que as interrupções não ocorrem todos os dias, mas que as oscilações de energia são sistemáticas e recorrentes. “Vai e vem rapidamente, fazendo com que ocorra a queima de algumas lâmpadas”, relata.

 

Saúde também é um desafio em Milhã (CE), no sertão central, o segundo município mais vulnerável do estado às questões climáticas, segundo o Índice Municipal de Alerta (IMA) do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (IPECE) de 2024. A falta de energia afeta serviços essenciais como as sete Unidades Básicas de Saúde (UBS), o Hospital Municipal, além das aulas de crianças e do atendimento em repartições públicas. Durante os apagões, muitas consultas são paralisadas. Afinal, os prontuários são todos eletrônicos ou digitalizados, o que impedem o acesso às informações e monitoramento de saúde dos pacientes. No Hospital Municipal, a equipe do prefeito Alan Macêdo (PSB-CE) disse à Agência Pública  que os atendimentos são “parcialmente interrompidos, até mesmo a realização de pequenas cirurgias”, em virtude das quedas de energia.

Gestão municipal confirmou que atendimentos e até pequenas cirurgias acabam interrompidos ou remarcados devido à falta de energia elétrica no município (Crédito: arte sobre foto de Ascom Milhã/divulgação)

A rotina de interrupções na energia não é exclusiva de Limoeiro do Norte e Milhã, porque também afetam os moradores de Arneiroz, Crato, Horizonte, Madalena, Mauriti, Morada Nova, Tamboril e Tianguá, todos no Ceará. Por isso, os municípios recorreram ao Ministério Público do Ceará (MPCE) para mover ações civis ou processos contra a Enel Distribuição Ceará S/A, empresa responsável pela distribuição de energia no estado. Nos nove municípios, ao menos 510 mil pessoas são afetadas pelo problema.

Em novembro de 2016, a Enel assumiu o comando da distribuição energética no Ceará, após a privatização e venda da Companhia Energética do Estado do Ceará (Coelce). De origem italiana, a multinacional também atua nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. O patrimônio líquido total de 2024 foi de R$ 62 bilhões, segundo relatório da própria companhia.

A Pública questionou a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) se havia fiscalizações sobre a recorrência nas quedas de energia no interior do Ceará. Por meio de nota, o órgão respondeu que “em termos de processos fiscalizatórios na ENEL CE, estão em andamento metas de melhora no Duração Equivalente de Interrupção por Unidade Consumidora (DEC) e Frequência Equivalente de Interrupção por Unidade Consumidora (FEC) dos conjuntos elétricos da concessão e também metas para reduzir o Tempo Médio de Atendimento Emergencial.”

Segundo a Arce, a Enel vem reduzindo os indicadores de interrupções de energia, mas os números ainda “não são satisfatórios”. O órgão informou ainda que tempo total que os consumidores ficariam sem luz ao longo do ano teria caído de 25,59 horas, no fim de 2024, para 16,40 horas em setembro de 2025 e que o tempo médio de atendimento a ocorrências emergenciais passou de 565 minutos (9 horas e 25 minutos) para 445 minutos (7 horas e 25 minutos) no mesmo período.

Desde que assumiu a distribuição de energia no Ceará, a Enel coleciona episódios de desgaste com os consumidores cearenses e acumula multas e condenações judiciais. A empresa foi apontada como a responsável pela rotina de quedas de energia que afetam o cotidiano dos moradores e afetam serviços públicos. Pelo menos R$ 58 milhões já foram cobrados da companhia – valor que representa apenas 0,09% de seu patrimônio. As interrupções continuam e, até o momento, não há anúncio da companhia prevendo mudança de cenário. Sem perspectiva de mudança, aos moradores, no escuro, resta aguardar.

Em Tamboril, eleições no Centro foram prejudicadas no último pleito, quando urnas foram às escuras. (Crédito: arte sobre foto de TSE/divulgação)

Perímetro da escuridão: apagões já afetaram das eleições ao judiciário

Enquanto milhões de brasileiros iam às urnas para escolher os vereadores e prefeitos, eleitores de Tamboril (CE), a 280 km de Fortaleza, se depararam com os colégios eleitorais às escuras no dia 6 de outubro de 2024. “Não tinha energia, não, passou o dia todinho. Só chegou no fim da tarde”, lembra a agricultora Lucia Martins, 46, que foi surpreendida após fazer o percurso de sua casa até a zona eleitoral, no Colégio 4 de Outubro, no Centro.

Animais de Lúcia dependem de sistema de distribuição de água que funciona com energia elétrica e já passaram três dias com dificuldade para beber água. (Crédito: arte sobre foto de Arquivo pessoal)

“No dia do pleito, houve uma queda de energia na sede de Tamboril inteira. Alguns distritos continuaram com energia elétrica, mas a sede de Tamboril, que é onde congrega a maioria da população, ficou completamente às escuras”, contou o promotor de justiça Guilherme Maia. Segundo ele, a falta de eletricidade comprometeu também postos de gasolina, que precisaram interromper os serviços, o que “prejudicou de certa maneira, mas não tanto a fiscalização do Ministério Público Eleitoral.” O caso foi um dos exemplos que integraram a ação civil movida contra a Enel, que nega a dimensão do ocorrido: “houve interrupção de energia em apenas uma zona eleitoral de Tamboril durante 50 minutos”.

Em dezembro do mesmo ano, a Vara Única da Comarca de Tamboril teve um júri anulado também por falta de energia. “Tivemos que fazer um novo plenário do júri, o que acarretou em um prejuízo tanto financeiro quanto de tempo, [porque] as pessoas se dedicaram para estarem ali presentes, mas [a sessão] acabou não acontecendo”, contou Maia.

Levi, que depende de vendar para viver, vê o negócio prejudicado sempre que a energia cessa na cidade. (Crédito: arte sobre foto de Arquivo Pessoal)

“A vida para. A luz é o que faz tudo funcionar. Sem energia, nada anda, nada produz e nada vende. A cidade simplesmente trava. É como tentar tocar o dia com as mãos amarradas, o que até dá pra sobreviver, mas não dá pra trabalhar, nem render”, descreveu o empreendedor Levi Rodrigues, de 21 anos, que vive em Tamboril desde que nasceu.

Em Milhã, o 11 de novembro de 2025 era para ser um dia normal de trabalho, mas, por volta das 13h, o centro da cidade ficou sem energia. Serviços jurídicos, de licitações, compras e contabilidade, todos ficaram fora de operação. “Quase tudo é online ou conectado na energia”, informou o chefe de comunicação municipal, Tony Rendrew. Segundo moradores, a energia elétrica só retornou quase no fim do dia.

Em Morada Nova, o serviço de saúde também foi um dos mais comprometidos. Segundo a ação movida pelo promotor Filipe Paulino Martins, “os prejuízos materiais foram diversos e de diversas situações de sufoco: de aparelho de oxigênio ter ficado sem operar por um tempo relevante e de transtorno na Unidade de Pronto Atendimento (UPA)”. O processo foi instaurado após um abaixo-assinado feito pelos moradores exigindo melhorias no atendimento.

Unidade de Pronto-Atendimento de Morava Nova já foi impactada algumas vezes com a interrupção do atendimento e cancelamento de agendamentos devido à falta de eletricidade (Crédito: arte sobre foto de IGC/reprodução)

A Justiça acatou a ação e deu prazo até dezembro deste ano para que a Enel apresente cronograma de ações de manutenção preventiva e corretiva na rede, além de reforçar os recursos humanos e materiais na região, exigindo relatórios mensais até o final de 2026.

Enel diz investir R$ 7,4 bilhões entre 2025 e 2027 em modernização da rede (Crédito: divulgação ENEL)

Enel já acumula multas e condenações

Em 2024, a Enel Distribuição Ceará foi alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece), presidida pelo deputado estadual Fernando Santana (PT), que investigava a atuação irregular da empresa fornecedora de energia elétrica. O resultado final foi a elaboração de um relatório que pedia o rompimento contratual de concessão, em virtude da má qualidade dos serviços prestados.

A companhia foi condenada, em outubro de 2025, em primeira instância, a realizar obras e compra de equipamentos para assegurar o fornecimento completo e constante, além de “providências necessárias para modernização, ampliação e adequação do sistema de fornecimento de energia no Município de Tamboril”. A empresa deve ressarcir, também, os prejuízos causados individualmente a cada morador afetado.

Na justificativa, a qual a Pública teve acesso, o juiz Silviny de Melo Barros escreveu que os fatos narrados na ação civil “evidenciam que a falha da concessionária ultrapassou os limites da esfera individual dos consumidores, alcançando o interesse público em sua dimensão mais ampla, com impacto sobre a saúde, a economia local, o funcionamento das instituições democráticas e a própria confiança da sociedade no serviço público essencial de fornecimento de energia elétrica”.

Em 12 de novembro, a Justiça cearense também determinou que a Enel regularize os serviços prestados aos moradores de Morada Nova. A ação exige que a companhia de energia elétrica apresente em até 30 dias um Plano Técnico de Conformidade (PTC) específico para a cidade. Além disso, a empresa deve apresentar um relatório mensal sobre o PTC e caso a medida não seja cumprida, será aplicada uma multa diária de R$ 5 mil.

Outras multas também foram aplicadas pela Arce. Segundo a agência, no tema de conexão de geração distribuída, a empresa foi penalizada em R$ 19,3 milhões por descumprir prazos de atendimento a micro e minigeração. Já na análise dos pedidos de novas ligações que exigem obras, a Enel recebeu outra multa, desta vez de R$ 28,8 milhões. A agência também multou a concessionária em R$ 10,2 milhões por falhas relacionadas a obras solicitadas pela Secretaria de Infraestrutura do Estado.

Segundo a Enel, “entre 2025 e 2027, a distribuidora está investindo R$ 7,4 bilhões, um aumento de 54% em relação ao plano anterior. Os investimentos são destinados ao fortalecimento, resiliência e expansão da rede elétrica para acompanhar o crescimento do Ceará. No período de 2025 a 2027, serão construídas treze novas subestações e modernizadas e ampliadas outras 85 unidades, beneficiando cerca de 3 milhões de clientes.”

A companhia afirma ainda que o Ceará responde por apenas 4% das interrupções registradas em todo o país e que tem intensificado manutenções preventivas e podas. Em nota, a empresa afirmou que “os municípios mencionados pela reportagem estão incluídos no plano de investimentos e receberam uma série de iniciativas e obras ao longo deste ano”.

 

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