Uma disputa de terras em Trancoso, litoral turístico da Bahia ganha traços perigosos, com ações de desmatamento, supostas fraudes documentais e invasões de área conhecida como Terras do Rio Verde em Trancoso – Porto Seguro.

Tapumes foram colocados na terra
Enquanto a justiça não resolve definitivamente a questão, um muro já foi levantado em uma área de 15 hectares, obra essa que foi embargada. Tapumes foram erguidos em uma área 10 hectares.

Os moradores tradicionais de Trancoso há tempos denunciam grilagem de terras, fraudes documentais e ameaças físicas que se intensificaram nos últimos anos.

Dona Maria Teixeira Pereira, filha de Aloizio Soares Martins e Benedicta Teixeira de Medeiros mostra a terra em vídeo.

As Terras do Rio Verde ,era uma imensidão de terras . Pertencente há décadas, as famílias de Aloízio Soares Martins e Benedicta Teixeira de Medeiros, com origem em meados de 1900 e documentação datada desde o ano de 1964.
Disputas se arrastam
O conflito pela posse dessas terras valiosas ganhou novos contornos em 2022, quando de um dia para o outro tapumes foram instalados em parte da área, conhecida e apelidada de “Ilha do Urubu”, fazendo bloqueio
ao acesso dos moradores
e desmatamento do local.
A área de 20 hectares, de matrícula 26.733 — já bloqueada pela Justiça — teria sido (segundo informações dos grileiros) “doada” em 2006 pelo então governador Paulo Souto a um grupo identificado como “turma de Crisnandes”. A mesma área teria sido posteriormente vendida para o empresário Philipe Meeus.
O caso ganhou contornos mais complexo quando Gregório Marin Preciado alegou ser proprietário do terreno, com base na matrícula 13.188, oriunda de uma suposta negociação feita em 1989 por Moacir Costa Pereira de Andrade — figura apontada pelos moradores como responsável por iniciar, na década de 1970, a prática de aquisição de terras locais por meio de documentos falsos e hipotecas questionáveis judicialmente.
O empresário Philipe Meeus, mesmo ciente das disputas e dos bloqueios judiciais, teria adquirido outras áreas na mesma origem duvidosa, além de supostamente comprar em 2023 , direitos de cessão de herança dos filhos do segundo relacionamento de Aloízio Soares Martins. “E ainda compra o direito de herança de forma duvidosa e escolhe a terra que querem ocupar”, denuncia um dos familiares.
Em 2025 anulação de acordos e sequestro do bem.
A denúncia das famílias foi que Moacir, junto ao grupo de Gregório, teria utilizado a matrícula 13.188, conhecida como “matrícula voadora”, para tomar posse de áreas já ocupadas há décadas por comunidades tradicionais.
A documentação dessa matrícula “teria” origem na região de Itaquena, distante das Terras do Rio Verde, mas vem sendo usada para embasar reintegrações de posse e outras ações judiciais.
A disputa se agravou em 2020 com novas invasões e reintegração de posse (duvidosa) concedida em 2021 pelo juiz Fernando Machado Paropat em favor do Gregório . A Justiça concedeu em 2021 pela desembargadora Carmen Lucia . Uma decisão favorável às famílias de Aloízio e Benedicta.
Mesmo assim, em 2023, a parte contrária obteve uma nova decisão judicial favorável (duvidosa), revertendo parcialmente os avanços das famílias tradicionais. Já em 2025 a justiça manteve uma das herdeiras na sua terra e foi determinado o sequestro do bem, com anulação de acordos feitos pelo Gregório , ilha do urubu e turma.
Porém , o grupo de empresários segue tentando reverter decisões anteriores e fazer valer a matrícula 13.188 encima das Terras do Rio Verde.
Os moradores relatam várias décadas de abusos: destruição de documentos, incêndios em propriedades e até perseguições físicas, com ameaças de violência.
Terras do Rio Verde
Grande parte da comunidade que habita as Terras do Rio Verde é composta por pessoas muito humildes, muitas analfabetas, que afirmam e clamam por justiça e amparo das autoridades. “Eles sabiam que estávamos vulneráveis. Usaram disso para tomar nossas terras com malícia e falsidade”, afirma um descendente direto de Aloízio e Benedicta, que não quis se identificar por medo de represálias.
O caso evidencia até os dias de hoje, um histórico de violência fundiária na região do sul da Bahia, onde terras de alto valor turístico são alvos de disputa entre grupos econômicos, políticos e famílias tradicionais.
As denúncias já foram encaminhadas à Justiça, Ministério Público e aos órgãos competentes na tentativa de garantir o direito e a permanência das famílias em sua propriedade por direito, há gerações.

