Por Rafael Custódio| Edição: Ed Wanderley
Quando a energia elétrica acaba, o clima de preocupação é instalado. Mas a tensão passou a fazer parte da rotina dos funcionários da Casa Beneficente Padre Vicente Rodrigues da Silva, em Limoeiro do Norte (CE). A situação se repete semana a semana, segundo os moradores. A cada novo blecaute, a correria se instaura. É preciso agir rápido para preservar a saúde dos 42 moradores e avisar a distribuidora de energia, a Enel, sobre uma nova interrupção de energia. Os riscos são diversos, a começar pelo próprio calor do semiárido, que, na região, atinge a temperatura média de 27º e coloca em xeque o bem-estar dos pacientes, todos entre 60 e 98 anos. Os cuidadores se propõem a tentar prevenir mal-estares e lesões de pele como escaras, especialmente entre os oito acamados. De resto, é aguardar. Muito. Em casos de emergência assim, segundo a Agência Reguladora do Estado do Ceará (Arce), a espera média atual está acima das sete horas – e passando de nove no ano passado.
“Imagina um acamado ficar sem energia, ou sem um ambiente climatizado?”, protesta o administrador da instituição, Fernando Ângelo da Silva. Segundo ele, parte dos pacientes lamenta mais um apagão e sempre questiona: “será que vai demorar?”. Os demais ficam perdidos no contexto, sem entender claramente o que aconteceu, já que a maioria lida com a doença de Alzheimer. Silva conta que as interrupções não ocorrem todos os dias, mas que as oscilações de energia são sistemáticas e recorrentes. “Vai e vem rapidamente, fazendo com que ocorra a queima de algumas lâmpadas”, relata.

Saúde também é um desafio em Milhã (CE), no sertão central, o segundo município mais vulnerável do estado às questões climáticas, segundo o Índice Municipal de Alerta (IMA) do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (IPECE) de 2024. A falta de energia afeta serviços essenciais como as sete Unidades Básicas de Saúde (UBS), o Hospital Municipal, além das aulas de crianças e do atendimento em repartições públicas. Durante os apagões, muitas consultas são paralisadas. Afinal, os prontuários são todos eletrônicos ou digitalizados, o que impedem o acesso às informações e monitoramento de saúde dos pacientes. No Hospital Municipal, a equipe do prefeito Alan Macêdo (PSB-CE) disse à Agência Pública que os atendimentos são “parcialmente interrompidos, até mesmo a realização de pequenas cirurgias”, em virtude das quedas de energia.
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Gestão municipal confirmou que atendimentos e até pequenas cirurgias acabam interrompidos ou remarcados devido à falta de energia elétrica no município (Crédito: arte sobre foto de Ascom Milhã/divulgação)
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A rotina de interrupções na energia não é exclusiva de Limoeiro do Norte e Milhã, porque também afetam os moradores de Arneiroz, Crato, Horizonte, Madalena, Mauriti, Morada Nova, Tamboril e Tianguá, todos no Ceará. Por isso, os municípios recorreram ao Ministério Público do Ceará (MPCE) para mover ações civis ou processos contra a Enel Distribuição Ceará S/A, empresa responsável pela distribuição de energia no estado. Nos nove municípios, ao menos 510 mil pessoas são afetadas pelo problema.
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Em novembro de 2016, a Enel assumiu o comando da distribuição energética no Ceará, após a privatização e venda da Companhia Energética do Estado do Ceará (Coelce). De origem italiana, a multinacional também atua nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. O patrimônio líquido total de 2024 foi de R$ 62 bilhões, segundo relatório da própria companhia.
A Pública questionou a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) se havia fiscalizações sobre a recorrência nas quedas de energia no interior do Ceará. Por meio de nota, o órgão respondeu que “em termos de processos fiscalizatórios na ENEL CE, estão em andamento metas de melhora no Duração Equivalente de Interrupção por Unidade Consumidora (DEC) e Frequência Equivalente de Interrupção por Unidade Consumidora (FEC) dos conjuntos elétricos da concessão e também metas para reduzir o Tempo Médio de Atendimento Emergencial.”
Segundo a Arce, a Enel vem reduzindo os indicadores de interrupções de energia, mas os números ainda “não são satisfatórios”. O órgão informou ainda que tempo total que os consumidores ficariam sem luz ao longo do ano teria caído de 25,59 horas, no fim de 2024, para 16,40 horas em setembro de 2025 e que o tempo médio de atendimento a ocorrências emergenciais passou de 565 minutos (9 horas e 25 minutos) para 445 minutos (7 horas e 25 minutos) no mesmo período.
Desde que assumiu a distribuição de energia no Ceará, a Enel coleciona episódios de desgaste com os consumidores cearenses e acumula multas e condenações judiciais. A empresa foi apontada como a responsável pela rotina de quedas de energia que afetam o cotidiano dos moradores e afetam serviços públicos. Pelo menos R$ 58 milhões já foram cobrados da companhia – valor que representa apenas 0,09% de seu patrimônio. As interrupções continuam e, até o momento, não há anúncio da companhia prevendo mudança de cenário. Sem perspectiva de mudança, aos moradores, no escuro, resta aguardar.
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Em Tamboril, eleições no Centro foram prejudicadas no último pleito, quando urnas foram às escuras. (Crédito: arte sobre foto de TSE/divulgação)
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Perímetro da escuridão: apagões já afetaram das eleições ao judiciário
Enquanto milhões de brasileiros iam às urnas para escolher os vereadores e prefeitos, eleitores de Tamboril (CE), a 280 km de Fortaleza, se depararam com os colégios eleitorais às escuras no dia 6 de outubro de 2024. “Não tinha energia, não, passou o dia todinho. Só chegou no fim da tarde”, lembra a agricultora Lucia Martins, 46, que foi surpreendida após fazer o percurso de sua casa até a zona eleitoral, no Colégio 4 de Outubro, no Centro.
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