Fernando Vita, notável escritor baiano, mistura bom humor e política para falar com seus leitores sobre como uma pequena cidade da Bahia se espantou com a presença de um militar, em 1964, quando o Brasil viveu um golpe que, ao contrário da tentativa recente, deu certo e durou 21 anos.
Neste divertidíssimo quinto volume de sua saga na imaginária cidade baiana de Todavia, Fernando Vita nos vem com a história de um capitão do Exército que ali desembarca no trem do meio-dia e é recebido com pompa pelas autoridades locais. A situação política do País é instável. Logo ficam sabendo a que veio o capitão: criar o primeiro Tiro de Guerra da região.
E mais: tão rapidamente quanto tenta o militar impor a sua autoridade turrona, toda a sua vida pregressa é esquadrinhada e cai na boca do povo.
Fernando Vita constrói seu sexto romance neste universo ficcional provinciano, picaresco e erótico, nos anos política e ideologicamente turbulentos que antecedem o Golpe Militar de 1964.
O capitão vê comunistas e inimigos da Pátria em cada canto da prosaica Todavia e a situação piora quando vem o golpe e os dias medonhos que se seguem. Tudo isso escrito com bom humor, criatividade e o surrealismo fantástico que caracterizam todos os seus livros.
Então, preparem-se para dar boas risadas com este 1964: o Golpe, o Capitão e o Pum do Maestro, porque rir é ainda o melhor remédio. Mesmo quando se está a tratar de antigas tragédias. Ou tragicomédias. E principalmente quando o Brasil, nos tempos de agora, quase as replica, sob a ardilosa inspiração de um outro capitão tão parvo, tosco e aluado quanto o que um dia chegou a Todavia.
Os outros livros da série, que podem ser lidos separados, são: “Cartas anônimas”, “O avião de Noé”, “República dos mentecaptos” e “Désirée, a sexóloga que não sabia amar”. É autor também de “Tirem a doidinha da sala que vai começar a novela”.

SOBRE O AUTOR
Fernando Vita nasceu em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo baiano, em 22 de dezembro de 1948. Lá iniciou os seus estudos. Mudou-se em 1965 para Salvador e em 1973 formou-se em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia. Iniciou sua vida profissional no extinto Jornal da Bahia, onde foi repórter, editor e crítico musical. Foi repórter da sucursal baiana do Correio da Manhã e freelance do Jornal do Brasil e das revistas Veja e Istoé/Senhor. Nos anos oitenta escreveu crônicas semanais para o jornal A Tarde e para o semanário Pasquim. Em 2006, com o romance Tirem a doidinha da sala que vai começar a novela, Vita recebeu o Prêmio Braskem Cultura e Arte e teve o seu primeiro livro publicado pelo selo Casa de Palavras, da Fundação Casa de Jorge Amado. Pela Geração Editorial, lançou em 2011 Cartas Anônimas, uma hilariante história de intrigas, paixão e morte; em 2016, O Avião de Noé, uma hilariante história de inventores, impostores, escritores e outros malucos de modo geral; em 2019, República dos mentecaptos, uma hilariante história de mandriões, cortesãs, espertalhões e certos valdevinos de modo geral e em 2021, Desirée, a sexóloga que não sabia amar, uma hilariante história de rufiões, garanhões, putanheiros, sacanas e mentirosos de modo geral.
TRECHO DO LIVRO
…contudo, naqueles anos sessenta já idos, em Todavia, muito pouco se sabia a respeito do atarracado capitão do assim tido como “o glorioso Exército brasileiro”, um elemento de aparência meio oblonga, tez morena, olhos aquosos e inexpressivos, quase sempre protegidos dos sóis inclementes dos dias por um par de óculos Ray Ban, cabelos à moda da caserna, castanhos e escorridos sobre uma cabeça basta quando proporcionada ao saldo restante do corpo, braços e pernas curtos, estes em desacordo com o volume do tronco e com a proeminência da barriga, andar decidido e ares de salvador da Pátria; sim, pouco se sabia das antecedências do fardado, todo empacotado em uniforme verde- oliva, parcas medalhas e alamares, quepe vistoso ao cocuruto que o trem do meio do dia acabara de desovar na estação da mais que centenária Estrada de Ferro Nazaré, só que ele tinha por prenome Ludovico, capitão Ludovico, e que se deem por bastante informados, por enquanto, os leitores e os pouco mais que onze mil moradores da cidadezinha do Recôncavo da Bahia, uma gente desimportante e mal-ajambrada, mais afeita a rezar em missas, a cantar loas aos santos de barro ou pau oco em procissões, a chorar lágrimas de fancaria em velórios, a acompanhar enterros e, em momentos diversos e muitos, a escrever cartas anônimas e a lhes dar destino, nas sombras das madrugadas, aos breus das portas, de ordinário com o norte de destruir reputações, pôr abaixo respeitabilidades solidamente adquiridas, destrinchar amores clandestinos ou encubados, levar às cloacas vidas até então imaculadas; sabiam um pouco mais do recém-chegado, no entanto, apenas o prefeito Antônio Magalhães Braga, o AMB, uma meia grosa de autoridades menos autorizadas da cidade, o monsenhor Giuseppe Galvani, pároco da Matriz, não mais que tanto; nem mesmo o sabia o nonagenário maestro Sóter Barros, um amulatado varapau de quase meia légua de altura distando da
base dos pés à carapinha de raros fios de cabelo, ali a reger a augusta Sociedade Philarmônica Amantes da Lyra em retumbante tocata da marcha militar que diz em letra e música que nós somos da Pátria a guarda, fiéis soldados, por ela amados, muito menos os seus dissonantes saxofonistas, clarinetistas, tubistas, trombonistas, trompetistas, bombistas, pratistas, caixaclaristas, oboístas e outros assopradores de instrumentos ou batedores de tambores variados; assim, só à luz do empolado discurso de boas-vindas proferido pelo alcaide, soube-se que o Capitão Ludovico, de logo com as graças da sua patente e a sua própria postas em iniciais maiúsculas, quiçá todas as duas em caixa-alta, como, por jeito de ser, sempre subservientes a todos e a tudo que vem de fora, os todavienses se apressaram a grafar, chegara para implantar o primeiro Tiro de Guerra de toda a região, o TG115 de sigla e número, urgia proteger a segurança pátria naquele pedaço de chão, ainda que à custa do próprio sangue, da própria vida, sob a força das armas e a coragem cívica de recrutas a serem incorporados ali e acolá, assim aclarou, em rápidas palavras, ditas em tom vibrato e encorpado, muito próprio aos que dão ordens unidas em quartéis, o Capitão Ludovico, que de bate pronto já se perfilava e estranhava a falta, a um mastro, ainda que improvisado, do “auriverde pendão da esperança, símbolo augusto da paz”, mas exigia, peremptório, que dali por diante se lhe prestassem continências todos os viventes de Todavia, não importando a cor, a raça, o credo, o sexo, a idade ou quaisquer outros diferenciais que teimam em ousar distinguir os humanos, sim, que todos lhe prestassem continências, mesmo quando, por acaso, ele estivesse à paisana; e como rege a norma, um sempre manda para que muitos obedeçam, o prefeito AMB foi o primeiro a espalmar a mão direita à testa suada, juntar os pezinhos calçados a Vulcabrás lustrosos, bater sonoramente os calcanhares e fazê-lo; na sequência, retirado da cabeça o solidéu, fez o mesmo o monsenhor Galvani, seguido o de batina pelos demais presentes, consta que até os musicistas da Amantes da Lyra depuseram seus instrumentos ao chão da rampa de desembarque e fizeram igual, menos o maestro Sóter, contumaz anarquista de origem, que se aproveitou do trololó e do blábláblá do momento para, pouco notado, mas anotado por poucos, pôr a sua batuta de reger filarmônicas amparada no sovaco esquerdo e, com as vastas mãos, assemelhadas a duas folhas de caladium, hábeis em escrever dobrados e polcas e valsinhas em partituras pautadas e clavadas em sóis e dós e lás, endereçar uma solene banana de braço na rota do milico recém-chegante.
Algum positivo, a rogo da Prefeitura Municipal de Todavia, pôs fogo em três girandolas de foguetes, de três arroios e de trinta e duas bombas, de diferentes estrondos, cada um, vindos do fabrico de um camarada regionalmente conhecido como Bigorrilho, de forma que o esporro nos céus foi um sucesso formidável. Um outro quebra faca, igualmente a soldo do erário, cuidou de levar a pouca bagagem do Capitão – um velho baú de madeira descorada, sem alças, e uma surrada valise de mão – ao Hotel Sudoeste, decadente sobrado de péssimo arrojo arquitetônico, ali logo ao derredor da estação, e bem pertinho da Prefeitura e da Casa de Detenção. Meninos em calças curtas de brim e camisas de pano barato, pés descalços, que os há em todos os cantos mais pobres do planeta, não sendo única à Todavia essa desprimorosa primazia, correram aos cascos a catar as flechas. Cães vadios, afoitos e assustadiços, latiram em coro.
FICHA TÉCNICA:
Titulo: 1964 – O golpe, o Capitão e o Pum do Maestro Categoria: Ficção – Romance satírico
Autor: Fernando Vita
ISBN: 978-65-5647-150-1 (livro impresso)
ISBN: 978-65-5647-148-8 (e-book)
Brochura – 312 páginas
Formato – 15,6×22,5 cm
R$ 89,00 – livro impresso – R$ 42,00 – e-book

