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Amilton Gomes, envolvido em negociações de 400 milhões de doses de vacinas com o Ministério da Saúde, presta depoimento à CPI

Amilton Gomes de Paula, reverendo evangélico prestou na ultima sexta-feira 3, um depoimento confuso, evasivo e cheio de contradições. Durante sete horas, Amilton falou à CPI da Covid do Senado Federal e por mais de 20 vezes, ao ser questionado, disse não se lembrar de reuniões, mensagens e fotos registradas há poucos meses, no primeiro semestre deste ano. Ele é acusado de participar de reuniões para uma suposta venda de 400 milhões de Astrazeneca, com o Ministério da Saúde do Governo Bolsonaro. 

Amilton Gomes chegou a chorar e disse que a instituição comandada por ele tinha “interesse humanitário” na negociação de vacinas e confirmou que a entidade receberia doações, caso o governo federal fechasse negócio com a Davati Medical Supply para a compra de imunizantes.

Os Senadores classificaram o depoimento dele, de “conversa fiada”, disseram que o reverendo tinha interesses financeiros, afirmaram que ele mentiu à CPI e o chamaram de “estelionatário”. Em vários momentos, os membros da CPI questionaram se o reverendo estava tentando proteger alguém no depoimento, mas Amilton não respondeu.

Reverendo Amilton Gomes é fundador de uma entidade privada chamada Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários (Senah). Ele é considerado uma peça-chave na investigação da CPI, que tenta esclarecer como o governo brasileiro negociou a aquisição de imunizantes por meio de intermediários.

Gomes participou de negociação para uma suposta venda de 400 milhões de doses da AstraZeneca, em um momento de escassez de doses de imunizantes em todo o mundo. Até agora, nenhum dos envolvidos provou ter acesso real às doses – o laboratório diz que não negocia com intermediários.

O reverendo e a entidade que fundou, a Senah, receberam aval do então diretor de Imunização do Ministério da Saúde Laurício Monteiro Cruz para negociar a vacina AstraZeneca em nome do governo com a empresa americana Davati Medical Supply.

Trechos do depoimento :

À CPI, Amilton Gomes disse ter conhecido o cabo da Polícia Militar de Minas Gerais Luiz Paulo Dominghetti, que se dizia representante da Davati Medical Supply, no dia 16 de fevereiro. E que Dominghetti falou em 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca “disponíveis para pronta-entrega”.

O reverendo afirmou ter solicitado uma reunião para tratar da oferta com representantes do Ministério da Saúde no dia 22 de fevereiro e ter sido atendido no mesmo dia por Laurício Monteiro. A agilidade chamou a atenção dos senadores.

“O senhor mandou um e-mail às 12h, apontou o horário de que a reunião teria que ser às 16h30, às 16h30 já foi recebido. Eu queria essa eficiência do serviço público para a Pfizer”, ironizou Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

“Nós enviamos o e-mail e fomos recebidos”, reiterou Amilton. Questionado sobre o motivo de tal “prestígio”, o reverendo não respondeu objetivamente.

“Eu creio que, pela urgência da demanda, da escassez, do que nós estávamos vivendo, nós fomos recebidos”, afirmou.

Em outro momento, o reverendo disse ter conversado duas vezes com o dono da Davati, Herman Cardenas, e que o empresário garantiu a ele ter as vacinas.

Ainda durante o depoimento, o reverendo confirmou que a Senah receberia “doações” da Davati caso a venda de doses pela empresa norte-americana ao governo se concretizasse.

O reverendo não explicitou, no entanto, que tipo de doação seria ou qual valor a Senah receberia, mas que havia um “interesse humanitário” da entidade. “Qualquer instituto vive de doação”, disse Amilton. Na sequência, ele disse não ter participado de “nenhum acordo”.

O senador Fabiano Contarato (Rede-ES) insistiu no tema e perguntou qual seria o valor que a Senah receberia com a negociação.

“Não foram estabelecidos valores. Desde o início, falava-se sobre doação”, afirmou o reverendo, que voltou a afirmar que a Senah tinha interesse “humanitário” no episódio.

A fala irritou Contarato, que reagiu: “O interesse, com todo o respeito, não era humanitário, não. O interesse era qualquer outro, menos humanitário, e 557.359 pessoas pagaram com a vida! E a digital de muita gente está nessas mortes. O senhor, como reverendo, deveria ter esta consciência: 557.359 brasileiros e brasileiras perderam suas vidas”.

“Nosso interesse era extremamente humanitário”, repetiu o reverendo.

Alessandro Vieira (Cidadania-SE) chamou a suposta motivação humanitária do reverendo de “conversa fiada”.

“Não tem nada de humanitário nessa malandragem. Nada. O objetivo aqui era financeiro, escamoteado com o nome de doação. O senhor é um consultor que não tem um projeto apresentado. É um missionário que se apresenta como representante de várias entidades e que nenhuma reconhece a sua participação”, afirmou Vieira.

“O mais absurdo não é eu estar aqui hoje, no Senado, tendo que inquerir uma figura como o senhor. O mais absurdo é o governo dar espaço para gente como o senhor, como cabo Dominghetti, como o Cristiano Carvalho. Porque, enquanto as pessoas estavam morrendo, vocês estavam interessados em vantagem financeira. Eu não me comovo com suas lágrimas”, acrescentou o senador por Sergipe.

O reverendo também foi questionado sobre mensagens que trocou com o policial militar Dominghetti, no dia 16 de março.

Respondendo a Dominghetti, que queria atualizações a respeito de reuniões do reverendo, Amilton afirmou naquela data: “Ontem falei com quem manda! Tudo certo! Estão fazendo uma corrida compliance da informação da grande quantidade de vacinas!”.

Indagado sobre o episódio e sobre a quem se referia, Amilton Gomes, orientado por seu advogado, afirmou que a fala foi uma “bravata”. Presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), protestou:

“Veja bem, pastor, tudo que o senhor fala a partir de agora, as pessoas vão olhar para o senhor e vão dizer: ‘Será que ele está com bravata ou está falando a verdade?’. Repense o seu depoimento, pastor”.

As repostas evasivas de Amilton Gomes de Paula irritaram alguns senadores. Ele foi acusado de mentir ao colegiado e até foi chamado de “estelionatário” durante a sessão.

Amilton Gomes de Paula, então, chorou perante a comissão e se disse arrependido de ter “estado nessa operação de vacinas”.

“Eu creio que o maior erro que fiz foi abrir as portas da minha casa aqui em Brasília. Eu abri a porta da minha casa num momento que eu estava enfrentando a perda de um ente querido da minha família. E eu queria vacina para o Brasil [chora]. Eu me sinto. Eu tenho culpa sim. Eu hoje de madrugada, antes de vir pra cá, eu dobrei os meus joelhos, orei, e aí peço desculpa ao Brasil. E o que eu cometi não agradou, primeiramente, aos olhos de Deus. Mas eu estou aqui, para voltar e dizer […]. Foi um erro que, se eu pudesse voltar atrás, eu voltaria”, afirmou o reverendo.

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POR: Rita Moraes
Publicado em 04/08/2021