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Mineradora Norueguesa Hydro contamina diversas comunidades no Pará com material tóxico

A mineradora norueguesa Hydro Alunorte é acusada de poluir com resíduos tóxicos de mineração diversas comunidades de Barcarena, no estado do Pará. Segundo laudo divulgado no sábado, 17, pelo Instituto Evandro Chagas do Ministério da Saúde, a  multinacional produtora de alumínio, cujo acionista majoritário e controlador é o governo da Noruega, foi destaque no noticiário brasileiro após a confirmação do vazamento, de uma barragem de uma barragem que continha soda cáustica e metais tóxicos, após chuvas fortes na região. A Hydro é acusada de usar uma “tubulação clandestina de lançamento de efluentes não tratados” em um conjunto de nascentes do rio Muripi, aponta o mesmo laudo.

Após negar irregularidades, a Hydro admitiu, em nota enviada à BBC Brasil, confirmando a existência do canal encontrado por pesquisadores. “Durante uma das vistorias, verificou-se a existência de uma tubulação com pequena vazão de água de coloração avermelhada na área da refinaria”, afirma a empresa. “Conforme solicitado pelas autoridades, a empresa está fazendo as investigações necessárias para identificar a origem e natureza do material, bem como realizando a imediata vedação desta tubulação. Afirmou “ter o compromisso de corrigir qualquer problema que possa ter sido causado pela sua operação”.

“Houveram duas constatações. Primeiro, transbordo de efluentes. Os níveis de alumínio nos rios estavam 25 vezes mais altos que os estabelecidos pela legislação. Segundo, o mais grave de tudo, a empresa fez uma tubulação para jogar resíduos diretamente no ambiente”, disse à BBC Brasil o pesquisador em saúde pública Marcelo de Oliveira Lima, que assina o laudo oficial.

Segundo o especialista, “a população usa estas águas para recreação, consumo e captura de peixes”, o que poderia levar a contaminação também para o solo e o organismo dos moradores. Resultados de testes feitos no cabelo e pele dos vizinhos à barragem devem ser divulgados nas próximas semanas.

Questionada sobre a tubulação clandestina apontada pelo laudo e sobre a nota em que negava o vazamento, a empresa disse que aguarda receber o laudo oficial para comentá-lo. Procurado, o governo norueguês afirmou que não conseguiria responder às perguntas enviadas pela reportagem em tempo hábil.

Denúncia dos moradores

Após denúncias feitas por moradores de comunidades próximas sobre o vazamento, a Hydro divulgou a seus clientes uma nota em que classificava o episódio como “boato”, afirmando que “não houve vazamentos ou rompimentos” nos depósitos. A Hydro  empresa deve R$ 17 milhões ao Ibama em multas por contaminação de rios da região datadas de 2009.

Barcarena x Mariana

Nesta sexta, o Ministério Público Federal e do estado do Pará enviaram à empresa um documento que solicita que uma das bacias da empresa seja imediatamente embargada.

Segundo os órgãos, há risco de rompimento da bacia, o que despertou temor por uma tragédia semelhante à de Mariana (MG), em 2015, quando um mar de lama cobriu municípios e se espalhou pelo rio Doce até chegar ao oceano.

“Uma das bacias sequer tinha licença para operar. Estamos recomendando desde o fornecimento de água, uma vez que o Evandro Chagas constatou que essa água não é própria para o consumo”, afirmou a promotora de justiça agrária Eliane Moreira, em entrevista coletiva.

À BBC Brasil, o geógrafo Luiz Jardim, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), disse que as barragens de Mariana e de Barcarena “têm naturezas distintas”.

“Enquanto a da Samarco, em Mariana, era para lavagem de minério, a da Hydro, em Barcarena, é industrial, e guarda os resultados tóxicos da transformação da bauxita em alumina. Ela já pressupõe a existência de produtos químicos que fazem parte desta transformação, já que a limpeza dos minérios é feita antes, em Oriximiná.”

Para Jardim, que integra o Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração, que reúne 110 organizações ligadas ao tema, o risco de inundação em Mariana era maior graças ao relevo mineiro.

“Em Mariana, a barragem é muito mais alta do ponto de vista de relevo, em relação à declividade da Amazônia, onde há uma planície fluvial. Então a força do rompimento, caso ele ocorra, será menor. O que é central no caso de Barcarena é o potencial mais alto de contaminação dos rejeitos”, avalia.

‘A gente não quer migalha’

Em junho do ano passado, a BBC Brasil revelou que a empresa controlada pelo governo norueguês é alvo de uma série de denúncias do Ministério Público Federal (MPF) do Pará e de quase 2 mil processos judiciais por contaminação de rios e comunidades de Barcarena (PA).

Segundo o Ibama, a empresa não pagou até hoje multas estipuladas em R$ 17 milhões, após outro transbordamento de lama tóxica, em 2009. Ainda de acordo com o instituto, o vazamento na época colocou a população local em risco e gerou “mortandade de peixes e destruição significativa da biodiversidade”.

Fonte BBC Brasil

 

POR: Rita Moraes
Publicado em 24/02/2018